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Café, Minério Verde e Desafios Agrícolas: O Cenário das Commodities

Acompanhe as dinâmicas do mercado agrícola com a queda do preço do café arábica, impulsionada por uma safra recorde, e a ascensão do "minério verde" no setor siderúrgico global. Novas regulamentações climáticas e desafios climáticos locais moldam a competitividade e as estratégias de produtores no a

Em resumo

  • O café arábica recuou 14,3% em fevereiro de 2026 em São Paulo, atingindo R$ 1.864,51 a saca, pressionado pela projeção de safra recorde no Brasil de 66,2 milhões de sacas para 2026/27.
  • O minério de ferro avançou 1,27% na Bolsa de Dalian em 5 de março de 2026, com o contrato de maio cotado a US$ 110, em meio à volatilidade geopolítica.
  • A demanda por "minério verde" (pellet feed), minério de ferro de alto teor e baixa sílica, cresce impulsionada por políticas de descarbonização, como o mecanismo CBAM da União Europeia, que taxa importações com alta pegada de carbono desde 2026.
  • Produtores de figo no sudoeste de SP enfrentam desafios climáticos, como chuvas antecipadas, exigindo estratégias de manejo para manter a safra que segue de dezembro a abril/maio.

O Cenário do Café no Brasil: Safra Recorde e Preços em Queda

O mercado de café arábica no Brasil viu seus preços médios recuarem significativamente em fevereiro de 2026. Em São Paulo, o valor atingiu o patamar mais baixo desde julho do ano anterior, com queda de 14,3% em relação a janeiro, fechando a R$ 1.864,51 a saca de 60 quilos.

A principal pressão veio das projeções de uma safra recorde de café no Brasil para o ciclo 2026/27, algo não visto desde 2021. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma produção de 66,2 milhões de sacas, um aumento de 17,1% em comparação ao ciclo anterior. Esse crescimento é impulsionado pela bienalidade positiva e por um incremento de 4,1% na área em produção, totalizando 1,9 milhão de hectares.

Mesmo com a queda recente, o preço médio do arábica em fevereiro de 2026 ainda é o terceiro maior para o mês na série histórica do Cepea/Esalq, iniciada em 1996. Em janeiro, o mercado havia mostrado uma reação positiva, com cotações de R$ 2.200 para o arábica e R$ 1.200 para o robusta, impulsionadas pela necessidade de caixa dos agricultores e pela alta dos contratos futuros na Bolsa de Nova York.

Apesar das expectativas de safra recorde, há preocupações com o clima. A falta de chuvas e as altas temperaturas registradas em dezembro de 2025 em importantes regiões produtoras podem comprometer a formação dos grãos da safra 2026/27, resultando em cafés de menor qualidade. Por outro lado, o poder de compra de fertilizantes pelos produtores de café em São Paulo melhorou nos últimos meses de 2025. Era necessário 1,16 saca de arábica para adquirir uma tonelada de adubo, comparado a 1,44 saca em outubro de 2024 e uma média histórica de 2,6 sacas.

Minério de Ferro: Volatilidade e a Ascensão do "Minério Verde"

O preço do minério de ferro registrou um avanço de 1,27% na Bolsa de Dalian, na China, em 5 de março de 2026. O contrato futuro com vencimento em maio, o mais negociado, fechou cotado a US$ 110. Essa alta ocorreu em meio à volatilidade que afeta as commodities, influenciada por conflitos geopolíticos.

Além das flutuações de curto prazo, o mercado de minério de ferro vive uma transformação estrutural. O setor siderúrgico, responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂, busca reduzir seu impacto ambiental. Nesse contexto, o "minério verde", termo que se refere ao pellet feed, um concentrado de minério de ferro de alto teor e baixa sílica, ganha destaque.

Esse tipo de minério é essencial para processos siderúrgicos mais eficientes, permitindo maior aproveitamento energético e menor intensidade de emissões de carbono. A alta qualidade do pellet feed se torna uma vantagem competitiva crucial, principalmente diante das novas exigências regulatórias globais.

Descarbonização da Indústria Siderúrgica e o CBAM

Grandes economias, como a União Europeia e a China, estão impulsionando a busca por insumos que viabilizem a produção de aço de baixo carbono. A União Europeia implementou o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) em 2026, um mecanismo que incorpora o custo das emissões de carbono em produtos importados como ferro e aço. O CBAM visa evitar a "fuga de carbono", garantindo que empresas não transfiram a produção para países com regras ambientais menos rigorosas.

Na prática, essa medida altera a dinâmica do comércio global. Produtos com maior intensidade de emissões tendem a perder competitividade no mercado europeu, enquanto cadeias produtivas mais eficientes ganham espaço. A precificação do carbono consolida a política climática como uma variável econômica direta nas decisões industriais e logísticas.

A China também está alinhada a essa tendência, estabelecendo metas para modernizar sua capacidade siderúrgica e reduzir emissões. A convergência regulatória dos principais polos produtores e consumidores reorganiza toda a cadeia internacional de mineração, priorizando minérios com maior pureza química e menor presença de impurezas. O pellet feed, com sua oferta mais restrita em comparação ao minério convencional, torna-se um insumo cada vez mais valorizado. A descarbonização do aço redefine os critérios de competitividade global, transformando o minério de alto teor em uma condição para a relevância das empresas no mercado.

Figo: Desafios Climáticos e Estratégias Locais

No sudoeste de São Paulo, a produção de figo enfrenta desafios em 2026 devido às chuvas antecipadas. A safra, que se estende de dezembro a abril/maio, tem exigido estratégias específicas dos produtores para evitar prejuízos e manter a qualidade dos frutos.

Produtores como José Ronaldo Serigioli, que cultiva figo há quatro anos em Itapetininga, adotam a aplicação de cal nas figueiras para fortalecer a plantação. Com 200 pés em uma área de 2 mil metros, ele espera colher aproximadamente duas toneladas até maio. Daniel Nache, em Alambari, com 500 pés em quatro mil metros quadrados, prevê uma colheita de 7,5 toneladas, utilizando a colheita diária e a adubação como medidas para lidar com o volume de chuva.

Dados da Produção Agrícola Municipal de 2024 indicam que Itapetininga registrou uma produtividade de 17 toneladas por hectare. Apesar do potencial produtivo, o principal desafio para os agricultores da região é a concorrência de outras localidades e do mercado externo, levando-os a apostar na qualidade para fidelizar os consumidores.

Perguntas frequentes

O que é a bienalidade do café?

A bienalidade é um fenômeno natural em que a produção de café varia em ciclos, alternando entre um ano de safra alta (bienalidade positiva) e um ano de safra baixa (bienalidade negativa). Essa característica influencia diretamente as projeções de colheita e os preços no mercado.

Como o CBAM afeta o Brasil?

O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) da União Europeia impõe um custo sobre as emissões de carbono em produtos importados, como o aço. Para o Brasil, isso significa que produtos siderúrgicos com alta pegada de carbono podem ter sua competitividade reduzida no mercado europeu, incentivando a adoção de processos de produção mais limpos.

O que é o "minério verde"?

"Minério verde" refere-se a um tipo de minério de ferro de alta qualidade, como o pellet feed, com elevado teor de ferro e baixa sílica. Ele é considerado "verde" porque permite uma produção de aço mais eficiente e com menor emissão de dióxido de carbono, contribuindo para a descarbonização da indústria siderúrgica.

Como as mudanças climáticas afetam a safra agrícola?

As mudanças climáticas, como a ocorrência de chuvas antecipadas, períodos de seca prolongada ou temperaturas elevadas fora do padrão, impactam diretamente o calendário de plantio e colheita. Elas podem reduzir a produtividade, comprometer a qualidade dos produtos e exigir novas estratégias de manejo e investimento em tecnologia por parte dos produtores.


Fontes